Que a minha loucura seja perdoada

17set08

Hoje não venho aqui falar de mais um dos meus causos amorosos. Portanto… peço licença para falar seriamente de mim e do que venho passando/sentindo.

Ando enfrentando uma fase difícil. Talvez isso explique o motivo do meu sumiço por aqui. Quase deletei esse blog em um acesso de depressão. Tenho andando desmotivada, chorosa, exigente, briguenta. E só agora resolvi assumir a mim mesma que tenho um problema.

Sim. Ainda não fui a um especialista para começar a entender que nome tem tudo isso, mas sei que é real. Talvez mais do que eu queria que fosse, pra ser sincera.

Ontem, finalmente, após uma discussão banal com meus pais, consegui em meio a soluços, muito choro, gagueira e nervoso, explicar o que tem me atormentado. (alívio…)

Já faz 2 anos, que não consigo um emprego. Sou formada, fiz alguns estágios dentro da área, mas depois que a faculdade acabou, não encontrei um lugar. Ok… começo de carreira é assim mesmo, vamos a luta… todos diziam. Um ano se passou, algumas entrevistas aqui, outras ali… nada feito. Decidi viajar pra fora do país e durante 3 meses, trabalhei duro em uma fábrica. Voltei renovada pelas barreiras que superei sozinha, pela minha disciplina e por ter vencido. Empolgada, queria continuar e colocar aqui, tudo que aprendi lá como pessoa. Me senti pela primeira vez, grande. Por ter a coragem de ir e finalmente fazer algo por mim mesma e não por alguém. Nessa vibração, me enchi de esperanças…

Faz 6 meses que voltei e sinto dizer que deixei de acreditar e temo estar desistindo. Estou completamente frustada. As vezes, só penso em ir embora. Quero mais do que nunca construir uma vida minha. Não aguento mais ser sustentada pelos meus pais, dar trabalho pra eles como se eu tivesse 15 anos. Tenho plena consciência de que não sou mais uma garotinha e por isso me desespero. Não entendo porque a minha vida não aconteceu ainda. Não consigo deixar de pensar que no final das contas, devo ser realmente incapaz, desqualificada e porque não, burra.

Tudo isso tem me levado a estágios severos de depressão, intensificados por vários outros medos e loucuras que carrego comigo. (acreditem, se falasse todas aqui, me internariam na hora)

Medo do escuro, de ser assaltada, de que aconteça algo com as pessoas que amo, medo do que não conheço. Estou doente e preciso de ajuda. Porque os medos e sentimentos que tenho são tão sufocantes e cada dia mais ganham força para me paralisar física e psicologicamente falando.

Quero tirar essas loucuras todas da minha cabeça, fazer com que minha mente se aquiete e pare de buscar o tempo todo respostas e fazer tantas perguntas.

Talvez eu só precise me dar uma chance e voltar a acreditar, viver, buscar o que quero, ter objetivos e certezas. Pra quem dedicou a sua vida e energia aos outros, se entregando e amando loucamente e deixou-se um pouco de lado, já é um bom começo.

Escrevendo sobre mim e toda essa loucura que me acompanha lembro de dois escritores que admiro demais e que certamente me entenderiam nesse momento.

Sempre quando as palavras me faltam :

“Como me aniquila essa vida parada, à espera do futuro. Vai me dizer que o amanhã começa no hoje; que se deve plantar antes de esperar a colheita… Sim, sim. Estou por dentro dos clichês. Não tenho dúvidas de que nada brota sem sementes. Mas o que é que há? Não posso ficar de saco cheio do período entre-safras? Não posso querer margaridas fora da estação?

Pois bem! Quero margaridas fora da estação! E se possível rosas, crisântemos e essas flores todas que eu não sei o nome!”

 *Clarice Lispector em Água viva

 

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.”

*Álvaro de Campos em Tabacaria

 

 

 



4 Responses to “Que a minha loucura seja perdoada”

  1. 1 psyco

    O tormento é assim… consome-nos lentamente. Tira partes nossas. Arranca. Faz desesperar… e levamos á loucura. Ensandecemos de tanta duvida que outra hora eram certezas. Tira-nos capacidades de raciocínio logico e claro. Afunda-nos. Nessas alturas corremos desalmadamente. Corremos sem rumo á espera de ver algo que nos faça ficar. Segurar. Pedimos a nós próprias pra continuar apesar do cansaço. Seguramos algo… e nem acreditamos que conseguimos segurar algo. Vêm um pouco de esperança… mas logo em seguida caímos novamente. Perdida outra vez. Não acreditamos… desilusão… que desamino pra continuar. Apetece ficar aqui perdida, esquecida, pará de vez… e gritamos DEIXE-ME EM PAZ que eu NUNCA PEDI NADA. Apesar disso e a muito custo levantamos… mesmo com dores continuamos. Começamos a andar meio mancas… depois andar rápido… em seguida a correr, novamente, a correr. Sentimos o vento na cara. Hum… que delicia. Ganhamos novamente coragem. Desta vez sabemos que iremos agarrar algo melhor. É não a primeira coisa que aparecer. Desta vez têm de ser melhor. …

    Há muita coisa que não entendo. Há outras que sim. Outras que não quero entender. E outras que corro atrás pra entender. …
    Efeito borboleta. Não sei se sabes o que é!!!!???? Não tenho a minima ideia como achas-te o meu blog mas achas-te. Levaste-me ao teu… (nestes dia tenho ido sempre ao teu blog, mas não sei porque acabei por pensar que ias dar um tempo nisto… não tava muito longe disso) Causas-te um efeito borboleta. Gostava de continuar a vir aqui ao teu blog, partilhar ideias, experiências, sem preconceito e falar… falar… falar…

  2. Oi moça!
    Fiquei feliz em saber que você lê o meu blog e surpresa, pois só hoje você comentou e foi bom ter deixado seu endereço pra poder conhecer um pouco de você e das tuas palavras.
    Olha sobre o que vc escreveu, eu queria dizer várias coisas, mas vou me abster da maioria delas pois são todas clichês demais. Mas uma coisa que posso dizer, por experiência própria, todas as coisas são resolvíveis, acredite, minha vida já deu uma reviravolta imensa e foi punk. Era casada com um homem, uma vida toda certinha e um belo dia, larguei tudo pra me encontrar e pra viver um novo amor, desta vez com uma garota.
    Acho que você, como eu, tem essa coisa de pensar muito e as vezes precisamos ser mais leves, pensar menos e viver um dia de cada vez, um objetivo de cada vez…
    Bom é isso, falei demais e não sei se me fiz entender, tá vendo só? rs
    beijo
    vou linkar tua página, ok?

  3. 3 Rubia

    Não é só vc, não é só eu, são milhares de jovens na mesma situação… milhares de jovens no mundo todo… é altamente frustrante, eu sei. Já passei e ainda passo por tudo isso; sei exatamente o que sente. Força, esperança? Hum…. não sei… não posso te sugerir isso, pareceria um tanto… falso? Sorte, boa sorte… pq talento vc já tem de sobra, baby.
    Amo este poema da Clarice! Poso roubá-lo para o myspace? Juro que te credito. hehehe

    Bjo grande!!!!!

  4. 4 tudareise

    Psyco: Adoro tudo que diz. Você não tem idéia do quanto é importante e me faz bem ler seus comentários. Por isso, nunca deixe de vir aqui e falar falar… não importa o que seja. Pode nem ter a ver com algo que disse. O importante é dizer…
    Beijos.

    Karina: Obrigada por linkar minha página. Eu adoro seu blog! Essa vida é mesmo louca. Leveza para nós pois então. ;D Beijos.

    Rúbia: Eeee, bom ver você aqui! =) Quanto ao poema, claro que pode. A Clarice é de todos e para todos que tem bom gosto. hehehee E o mínimo de indagações/questionamentos em si.
    Beijinhos.


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